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Alegria e paz em Deus

Paulo e Silas numa prisão em Filipos (Atos 16:25)

23 de março de 2025. Aula ministrada na Comunidade Evangélica do Castelo. Série: Textos Notáveis.

Alegrem-se sempre no Senhor. Novamente direi: Alegrem-se! Seja a amabilidade de vocês conhecida por todos. Perto está o Senhor. Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e súplicas, e com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus.

Finalmente, irmãos, tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas. Ponham em prática tudo o que vocês aprenderam, receberam, ouviram e viram em mim. E o Deus da paz estará com vocês.

Filipenses 4:4-9

Por que esse é um texto notável? Porque ele fala de anseios perpétuos da humanidade, duas coisas que todo mundo deseja em todo lugar e em toda a história: alegria e paz (paz interior, como antônimo de ansiedade, inquietação da mente). Alguns de vocês devem ter visto o resultado de uma pesquisa na área de comunicação que buscava determinar a palavra do ano de 2024 aqui no Brasil, e a palavra eleita foi “ansiedade”. Isso nos mostra que os ensinos bíblicos sobre esse tema são ainda tão necessários hoje quanto quando foram originalmente escritos.

Essa passagem da carta é ainda mais impactante quando você conhece melhor as circunstâncias em que ela foi escrita, porque o contexto confere ainda mais força a essas recomendações de Paulo. Eu estou falando, claro, do fato de Paulo estar preso e acorrentado quando escreveu essa carta, o que é surpreendente, considerando a frequência com que ele fala da sua própria alegria. Vale a pena passar por algumas dessas passagens. Logo no começo da carta, Paulo fala:

Em todas as minhas orações em favor de vocês, sempre oro com alegria por causa da cooperação que vocês têm dado ao evangelho desde o primeiro dia até agora.

Filipenses 1:4-5

Então, logo de cara, Paulo já abre a carta falando da alegria que ele tinha no fato daquela igreja ser uma cooperadora fiel sua, desde quando ele fundou a igreja, até naquele presente momento, porque, apesar dos filipenses estarem consideravelmente distantes de Roma, eles não deixaram de enviar ajuda (doações) à Paulo por meio de um dos membros da igreja (Epafrodito). E isso era motivo de alegria para Paulo porque aquilo mostrava a fidelidade daqueles irmãos e que ele podia contar com eles mesmo estando longe.

Um pouco mais adiante, Paulo vai falar sobre dois outros motivos que ele tem para se alegrar, que é (1) porque a mensagem do evangelho está sendo pregada e (2) porque a sua expectativa é que ele não ficaria preso por muito mais tempo. Ele diz:

É verdade que alguns pregam Cristo por inveja e rivalidade, mas outros o fazem de boa vontade…

Atos 1:15

(Um parêntesis aqui: quando Paulo foi preso, um fenômeno interessante aconteceu: novos pregadores se levantaram na igreja para espalhar a mensagem de Cristo, já que o apóstolo estava impedido de fazer isso. Mas alguns faziam isso por pura inveja de Paulo. Certamente, quando Paulo estava pregando livremente, eles deveriam olhar para Paulo e ver como ele era admirado por muitas pessoas e pensar: “poxa, eu queria ser admirado como Paulo é. Eu queria exercer essa mesma influência sobre as pessoas”. Provavelmente até chegaram a tentar. Mas, naturalmente, enquanto Paulo está na ativa, todo mundo só tem olhos e ouvidos para Paulo. Então, quando Paulo foi preso, eles acharam bom. Eles pensaram: “opa, agora é nossa vez de brilhar e mostrar para Paulo que nós somos tão bons quanto ele!”, e começaram a perseguir a mesma fama de Paulo pregando a mesma mensagem de Paulo, que é a mensagem de Cristo. Então é a esse fenômeno que Paulo está se referindo aqui: ao surgimento de diversos pregadores depois que ele foi preso, vários deles sinceros, mas alguns que eram só invejosos em busca de prestígio semelhante ao de Paulo.)

Estes o fazem por amor, sabendo que aqui me encontro para a defesa do evangelho. Aqueles pregam Cristo por ambição egoísta, sem sinceridade, pensando que me podem causar sofrimento enquanto estou preso. Mas que importa? O importante é que de qualquer forma, seja por motivos falsos ou verdadeiros, Cristo está sendo pregado, e por isso me alegro.

Filipenses 1:16-18

Então, apesar dessa situação lamentável e vergonhosa, do surgimento desses pregadores invejosos, no final das contas, depois de colocar na balança as coisas, Paulo via que ele tinha mais motivos para se alegrar do que para se entristecer, porque o mais importante é que a mensagem de Cristo estava sendo pregada. Como quem diz: “Deixa quieto por enquanto que no dia do juízo Deus vai fazer a separação entre os pregadores falsos, a quem Deus vai dizer: ‘nunca os conheci’, e os verdadeiros, a quem Deus vai dizer: venham e bebam de graça da água da vida”.

E logo em seguida, Paulo começa a falar de mais um motivo que ele tem para se alegrar:

De fato, continuarei a alegrar-me, pois sei que o que me aconteceu resultará em minha libertação, graças às orações de vocês e ao auxílio do Espírito de Jesus Cristo

Filipenses 1:15-19

Aqui Paulo está falando da sua expectativa de ser liberto da sua prisão, algo que muitos irmãos estavam pedindo a Deus, inclusive os Filipenses, e que agora as coisas estavam de fato se encaminhando para que isso se concretizasse. Mais um motivo de alegria.

Avançando um pouco mais, Paulo escreve:

Se por estarmos em Cristo nós temos alguma motivação, alguma exortação de amor, alguma comunhão no Espírito, alguma profunda afeição e compaixão, completem a minha alegria, tendo o mesmo modo de pensar, o mesmo amor, um só espírito e uma só atitude

Filipenses 2:1-2

“Completem a minha alegria”, como quem diz: “eu já estou alegre com o procedimento de vocês, mas se vocês quiserem me deixar ainda mais alegre, só peço a vocês isso: que tenham o mesmo modo de pensar etc”. Quer dizer, o tanque está quase cheio, Paulo só está pedindo pro frentista completar.

E por fim, se ainda não tiver ficado claro que ele está alegre, Paulo escreve um pouco mais adiante:

Contudo, mesmo que eu esteja sendo derramado como oferta de bebida sobre o serviço que provém da fé que vocês têm, o sacrifício que oferecem a Deus, estou alegre e me regozijo com todos vocês. Estejam vocês também alegres, e regozijem-se comigo.

Filipenses 2:17-18

A expressão aqui usada, “ser derramado como oferta de bebida”, é uma metáfora baseada nos rituais de sacrifício do AT que ele usa para falar do seu possível martírio, que poderia acontecer antes que ele tivesse a oportunidade de ver os filipenses novamente. Como quem diz: eu não ligo de morrer, na verdade até me alegro com isso, se isso significa que, graças ao meu trabalho, vocês estarão oferecendo um sacrifício agradável a Deus (“sacrifício” entre aspas, porque o único sacrifício que Deus quer de nós depois do sacrifício de Cristo é a nossa fé). Então, na avaliação de Paulo, se o seu martírio fosse contribuir para o crescimento da igreja e a salvação de mais pessoas, ele teria mais esse motivo para se alegrar.

Enfim, nós não chegamos nem na metade da carta, mas já deu para captar que o estado de espírito de Paulo é de alegria. Nem parece que ele está na situação que ele está. É por isso que eu digo que o contexto em que Paulo escreveu estas palavras confere ainda maior força à essa sua exortação para que os filipenses se alegrarem: porque ele sabe o que é sofrer, sabe o que é passar por dificuldades, sabe o que é ser abandonado, mas, acima de tudo, sabe viver alegre apesar das circunstâncias. Então as recomendações de Paulo vem de alguém que sabe do que está falando. Se tem alguém que sabe indicar o caminho para viver contente em qualquer situação, esse alguém é Paulo.

Sobre as suas circunstâncias de Paulo quando ele escreve essa carta, até agora eu só destaquei o fato de ele estar preso. Mas existem outros fatores mencionados por Paulo na carta que poderiam roubar a sua alegria. Ele poderia, por exemplo, poderia ficar lamentando o surgimento daqueles pregadores invejosos, duas caras, falsos, que usavam o nome de Jesus por puro interesse; poderia viver angustiado diante da constante possibilidade de ser condenado à morte a qualquer momento; poderia ficar preocupado com o fato de os filipenses estarem sendo perseguidos (que é um dos assuntos da carta); poderia viver irado com os judaizantes, que ele combateu durante todo o seu ministério e até hoje eles estavam influenciando os crentes (que também é um dos assuntos da carta); poderia ficar amargurado com o fato dos seus cooperadores o terem abandonado no momento que ele mais precisava deles, restando apenas Timóteo e alguns outros (algo sobre o qual ele também fala de passagem na carta). Tudo isso poderia jogar o ânimo de Paulo lá pra baixo. E eu só estou falando de ladrões da alegria que aparecem nessa carta, podem ter outras coisas que poderiam roubar a alegria de Paulo. Mas ele só transparece alegria! Como isso é possível? Como ele consegue ver o copo sempre meio cheio? “Tem pregadores invejosos, mas o que importa é que Cristo está sendo pregado”. “Eu posso ser condenado à morte a qualquer momento, mas o morrer é lucro”. “Meus cooperadores me abandonaram, mas eu ainda tenho Timóteo”. Qual é o segredo de Paulo para viver contente em toda e qualquer situação?

Vamos entrar no texto de hoje e ver como isso é possível.

Alegrem-se sempre no Senhor. Novamente direi: Alegrem-se!

Filipenses 4:4

A primeira pergunta que nos cabe responder é: o que levou Paulo a dar essa ordem à igreja de Filipos? O que a igreja estava passando que necessitava dessa ênfase de Paulo na alegria? A gente sabe, pelo que Paulo escreve, que a igreja de Filipos também estava passando por algumas dificuldades que poderiam roubar a sua alegria. Por exemplo, a gente sabe que a igreja estava enfrentando forte oposição, tal como a que Paulo enfrentou quando ele fundou a igreja, incluindo castigos públicos e prisões. A gente sabe também que a igreja estava preocupada com a situação do irmão Epafrodito que eles enviaram para ajudar Paulo e eles ficaram sabendo que ele adoeceu gravemente, e estavam sem saber da situação dele, que ele tinha melhorado, etc. Existe também o desentendimento entre irmãs da igreja, Evódia e Síntique, que, para Paulo ter mencionado esse caso específico numa carta para ser lida publicamente, incluindo o nome das pessoas envolvidas, indica que era uma situação que afetava toda a igreja, possivelmente por causa da influência dessas irmãs. Mas eu acredito que a principal razão para essa exortação de Paulo, é que certos pregadores ali em Filipos estavam pregando um “evangelho empobrecido”, uma mensagem que diminuía a mensagem do evangelho verdadeiro e, por consequência, subestimava os motivos que nós temos para nos alegrar. Essa exortação de Paulo para que a igreja se alegre é, na verdade, a segunda vez que ela aparece. A primeira vez é no início do capítulo 3, quando ele está falando sobre esses pregadores. Por isso, eu acredito que por causa da gravidade da mentira ensinada por aqueles homens Paulo está aqui no capítulo 4 reforçando, insistindo na exortação que aparece naquele contexto do capítulo 3, quando ele escreve:

Finalmente, meus irmãos, alegrem-se no Senhor! Escrever de novo as mesmas coisas não é cansativo para mim e é uma segurança para vocês. Cuidado com os “cães”, cuidado com esses que praticam o mal, cuidado com a falsa circuncisão!

Filipenses 3:1-2

Etc. Nós não vamos ler toda a oposição de Paulo a esses pregadores, que ele chama de cães, mas eu vou resumir. Qual é a questão aqui, e por que Paulo chama a igreja a se alegrar no Senhor no contexto em que ele está combatendo esses pregadores? A questão é que estava sendo pregado por alguns judeus-cristãos em Filipos que para que gentios fossem incluídos no povo de Deus e, portanto, salvos, eles deveriam “se tornar judeus”, o que na prática significava submeter-se à lei de Moisés, começando pela circuncisão, que é a marca física característica do judeu homem, mas também incluindo todas as outras leis: adotar a mesma dieta, celebrar as mesmas festas, guardar o sábado como eles, etc. A esses judeus-cristãos, que pregavam que gentios deveriam se tornar judeus para serem salvos, a igreja posteriormente convencionou chamar de “judaizantes” (porque queriam “judaizar” os gentios).

Note que a questão não é se é necessário crer em Jesus Cristo para ser salvo. É algo mais sutil do que isso. Se você dissesse a um judaizante que é necessário crer em Jesus Cristo para ser salvo, ele iria dizer amém para isso. Mas ele iria acrescentar que além de crer em Jesus Cristo, é necessário ser circuncidado e obedecer à lei de Moisés. Por isso essa falsidade muitas vezes foi aceita dentro da igreja primitiva, porque havia essa sutileza por parte dos judaizantes: eles aceitavam a Jesus Cristo, mas acrescentavam algo a mais, e os judaizantes aparecem não apenas aqui em Filipenses, mas diversas vezes no NT. Na verdade, essa foi a controvérsia mais frequente no início da igreja, e foi o tema do primeiro concílio da igreja narrado em Atos 15. A pergunta que pautou o concílio é: “É necessário exigir dos gentios que eles sejam circuncidados e obedeçam à lei de Moisés?” (At 15:5). Depois de muita discussão, a resposta final do concílio foi que não, que tanto judeus como gentios são salvos da mesma forma: pela graça do Senhor Jesus (Atos 15:11). Mas o fato de ter havido um concílio em Jerusalém para responder essa pergunta não impediu, claro, que a questão continuasse surgindo e ressurgindo em diferentes cidades onde o evangelho era pregado. Ela surgiu em Antioquia, em Jerusalém, na Galácia, em Colossos, em Filipos, etc, e é assunto de diversas das cartas do NT.

Enfim, qual é o problema com a pregação dos judaizantes? O problema é que ela remove da boa notícia do evangelho a sua essência e melhor parte, que é a salvação independente da obediência à lei (Rm 3:28). Na verdade, a proposta de salvação que os cristão judaizantes anunciavam não era em nada diferente da proposta feita originalmente por intermédio de Moisés, de que o homem que obedecer e colocar em prática toda a lei, por elas viverá (Lv 18:5; Gl 3:12), e esse é o problema. Não há, nunca houve, nem jamais haverá homem nenhum que possa dizer que conseguiu a proeza de satisfazer todas as exigências de Deus. Não há nenhum justo, nem um sequer. “Ninguém será declarado justo diante de Deus baseando-se na obediência à Lei” (Rm 3:20). Mas se a salvação, segundo os judaizantes, depende da obediência à lei, Cristo não serve pra nada (Gl 5:2). “Crer em Cristo” vira só mais um item da lista de coisas que devemos fazer para sermos salvos. Ou seja, no final das contas, a mensagem dos judaizantes conseguia tornar a salvação ainda mais difícil do que a lei de Moisés, porque aos mais de 600 mandamentos da lei, eles acrescentavam mais um, que é crer em Cristo. Então, se, à primeira vista, esse tipo de mensagem pode parecer inofensiva porque aparentemente provém de auto-declarados cristãos zelosos e bem intencionados, à segunda vista é uma completa negação da obra que Cristo veio fazer aqui na terra.

Isso também serve de lição para nós hoje. Toda vez que alguém adiciona um algo mais, uma condição adicional para salvação além de crer em Cristo, seja fazer parte de uma determinada igreja, seja guardar determinado dia da semana, seja abster-se de certas bebidas e alimentos, seja fazer alguma coisa com seu dinheiro, ela está menosprezando a obra de Cristo, tal como os judaizantes. Mas Cristo não veio à toa, ele não veio só para repetir o que Moisés já falou, ele não veio para nos inspirar e nos incentivar a obedecer à lei. Ele fez tudo isso, é verdade, mas sua principal obra, sua missão, a razão pela qual ele se encarnou, foi morrer no lugar daqueles que nele creem, a fim de pagar toda a nossa dívida devido à nossa desobediência. Remova isso do evangelho e você removeu o evangelho inteiro.

E ao remover a salvação pela fé somente, você remove a razão da alegria dos crentes. O efeito que um evangelho adulterado tal como o dos judaizantes tem em um crente é que esse crente começa a questionar tudo aquilo em que ele acredita. “Então quer dizer que a boa notícia do evangelho não é tão boa quanto eu achava? Eu creio em Cristo do fundo do meu coração, e ainda assim, existe o risco de eu ser condenado pela minha desobediência?” Aí a pessoa começa a tentar se aperfeiçoar pela obediência à lei (Gl 3:3) e vai se decepcionando cada vez mais consigo mesma por causa do seu fracasso, desanimando dia após dia, e Cristo acaba rebaixado da posição de Salvador daquela pessoa para uma mera inspiração, um exemplo de vida a ser seguido. No final das contas, ela “descobre” (erroneamente) que a boa notícia do evangelho original que ela aprendeu não é tão boa assim. A alegria da salvação pela fé somente vai embora e o que fica é apenas o medo da condenação pelas suas más obras.

É por isso que o chamado que Paulo faz aos crentes de Filipos é que eles se alegrem, sim, no Senhor. Independente do que aqueles cães judaizantes estivessem latindo com a pregação deles, eles tem, sim, motivo para se alegrar no evangelho. O evangelho é, sim, tão bom quanto ele parece ser. Eles não deveriam dar ouvidos aos judaizantes, Paulo não se enganou quando ele pregou originalmente naquela igreja, ele não pregou uma mensagem incompleta. A mensagem é bem simples mesmo, clara e objetiva: creia no Senhor Jesus e você será salvo (At 16:31). E para reforçar a sua convicção nessa mensagem, Paulo dá o seu próprio exemplo. Sendo hebreu de sangue, circuncidado ao oitavo dia, zeloso e irrepreensível na obediência à lei, ele rejeitou, abandonou toda tentativa de obter a salvação pela obediência em troca da salvação oferecida pelo Salvador Jesus Cristo. Por isso ele diz, ou melhor, ordena aos Filipenses: Alegrem-se! Alegrem-se, sim, no Senhor Jesus! Já não há mais condenação para vocês! A fé em Jesus é, sim, a única e suficiente condição para que vocês sejam salvos! Alegrem-se naquilo que o Senhor fez por vocês! Ele faz isso no capítulo 3 e, agora, no capítulo 4, ele insiste e reforça a mesma exortação:

Alegrem-se sempre no Senhor. Novamente direi: Alegrem-se!

Filipenses 4:4

Prosseguindo no texto, além de serem pessoas alegres, Paulo chama os Filipenses a serem também pessoas amáveis e pessoas tranquilas. Ele diz:

Seja a amabilidade de vocês conhecida por todos. Perto está o Senhor. Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e súplicas, e com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus.

Filipenses 4:5-7

Algumas das mesmas circunstâncias que eu já mencionei que poderiam roubar a alegria da igreja poderiam roubar também (1) a sua mansidão (sua moderação no tratamento com outras pessoas) e (2) sua paz e tranquilidade em relação ao futuro. Mais fortemente, essas duas outras exortações estão bastante relacionadas ao contexto de perseguição sofrida pela igreja. Esse assunto é abordado no final do capítulo 1, quando Paulo ordena a igreja que ela “exerça a sua cidadania de maneira digna do evangelho de Cristo” apesar da oposição que ela estava sofrendo por parte dos seus concidadãos, que, ao que tudo indica, era tão ferrenha quanto a oposição sofrida por Paulo quando ele esteve na cidade, porque ele compara a luta pela qual aqueles irmãos estavam passando com a luta que eles viram com os seus próprios olhos Paulo enfrentar. Ou seja, possivelmente pessoas da igreja estavam sendo acusadas, presas e açoitadas injustamente, tal como Paulo foi.

Nesse contexto de perseguição, injúria, calúnias, etc, em que a reação natural de uma pessoa é a de revidar, de se revoltar contra o sistema e de procurar retaliação e vingança contra aqueles que estavam perseguindo a igreja, Paulo ordena aos filipenses que hajam de maneira diferente. Lá no capítulo 1, a ordem foi que eles exercessem sua cidadania de maneira digna do evangelho de Cristo, o que significa continuar sendo bons cidadãos, exemplares na sua conduta, pacíficos e não-revoltosos, ainda que as autoridades da cidade estivessem se voltando contra eles. E aqui no capítulo 4, a exortação é na mesma linha: Paulo ordena que eles sejam pessoas amáveis, não apenas dentro da igreja, mas também com os de fora, de modo que a amabilidade deles fosse conhecida por todos. É por essas características que eles deveriam ser conhecidos pelas pessoas: pela sua cidadania e sua amabilidade.

Além disso, nesse contexto de perseguição, a outra reação natural é a ansiedade, que é a inquietação da mente por causa de preocupações com o futuro. Afinal de contas, ontem, quem foi acusado, preso e açoitado foi Paulo. Hoje, foi o irmão fulano de tal. E amanhã? Amanhã, pode ser eu, ou meu cônjuge, ou meus filhos. E se isso me acontecer, quem me garante que eu vou ser solto? Paulo ainda tinha alguma vantagem de ter os direitos de cidadão romano. Mas e eu que não sou cidadão romano? O que vão fazer com os meus bens? Quem vai cuidar da minha família? E se eles acirrarem ainda mais a perseguição e eu for condenado à morte? Ou seja, a reação normal, natural de alguém nesse contexto, é ficar ansiosa mesmo, com a mente inquieta pensando em tudo de ruim que pode acontecer à ela. Mas Paulo chama a igreja a uma reação anti-natural, ou sobrenatural, que é passar por tudo isso sem se desesperar, sem deixar que sua mente seja sobrecarregada de preocupações, sem andar ansioso por coisa alguma.

Sem dúvida, isso é muito difícil. Nós que não passamos nem pela metade dos sofrimentos de uma igreja perseguida já temos dificuldades de pacificar a nossa mente, imagine os Filipenses. Mas, apesar de difícil, isso não seria impossível para eles, desde que se lembrassem de duas coisas. Primeiro, que eles se lembrassem que eles tem um ajudador: “Perto está o Senhor”, diz Paulo. Quando Jesus subiu aos céus, ele não nos abandonou à nossa própria sorte. Ele continua perto. Às vezes literalmente perto, como nas ocasiões em que ele visitou Paulo na prisão para encorajá-lo. Mas, mais frequentemente, ele está perto através do Espírito Santo que habita em cada um de nós, que foi enviado por ele justamente para nos consolar, nos ajudar nas dificuldades, nos capacitar e nos santificar. Então nós não estamos sozinhos quando estamos sendo perseguidos, nosso Deus vê as nossas dificuldades de perto, e isso deve estar sempre em nossa mente se nós não queremos viver ansiosos.

A segunda coisa que os Filipenses deveriam e nós devemos nos lembrar quando estivermos inquietos com preocupações dessa vida é de orar, é abrir o nosso coração diante de Deus e dizer: “Deus, eu estou preocupado com essa situação”. “Deus, eu estou doente, o remédio é caro, o tratamento é caro. Me ajuda, Senhor!” “Deus, eu temo pelo futuro do meu casamento!” “Deus, eu estou preocupado com as decisões que meus filhos estão tomando!” “Deus, eu estou endividado e não tenho como pagar!” É isso, orar é algo simples de fazer, mas que faz toda a diferença para o nosso estado de espírito. Primeiro, porque o ato de orar, em si, já é uma lembrança de que nós temos um Deus todo-poderoso que pode fazer muito mais do que nós pedimos, e isso já começa a tranquilizar nosso coração. Segundo, porque Deus se agrada quando nós oramos, ele não se irrita quando nós lançamos sobre ele nossa ansiedade (1Pe 5:7), ele quer que nós façamos isso para o nosso próprio bem. E terceiro, porque ele dá ouvidos e responde, não necessariamente com a resposta que nós queremos, nem no nosso tempo, nem do nosso jeito, mas o Espírito Santo fala silenciosamente ao nosso espírito, nos lembra de alguma verdade que vai pacificar a nossa mente, nos fala através da bíblia, nos fala através de irmãos, através das músicas do culto e da palavra pregada, e às vezes até nos concede o que pedimos sem falar nada. Enfim, nós podemos estar certos de que Deus nos ouve e leva as nossas petições em consideração nos seus planos, e na bíblia nós temos muitos exemplos disso.

Então, se nós tivermos sempre em mente que “Perto está o Senhor”, e se nós nos lembrarmos sempre de apresentar nossos pedidos a Deus, Paulo diz:

E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus.

Filipenses 4:7

“Guardará”. A figura de linguagem é muito bonita, porque é como se a paz de Deus fosse um guarda que Deus coloca na entrada do nosso coração e da nossa mente para impedir a invasão das coisas que nos inquietam. A lembrança de que Deus está perto, e o hábito de falar com ele tem esse efeito de proteger nosso espírito da ansiedade.

Agora, tem um detalhe que eu acho que é importante notar para nós não sermos mais duros com nós mesmos do que a própria bíblia é. Ansiedade é a perturbação da paz do espírito por causa de preocupações diversas; Inquietação da mente.. Paulo está falando sobre “andar ansioso”, e não sobre “ficar ansioso”. Andar ansioso é viver ansioso, viver preocupado. Ficar ansioso é ter episódios de inquietação da mente, ter períodos de preocupação. Ficar ansioso é algo que vai acontecer não porque você é um pecador miserável que não sabe pacificar o seu espírito. Você é um pecador miserável, mas essa não é necessariamente a causa das suas inquietações. Existem fatores externos e internos que afetam o nosso estado de espírito independentemente da nossa santidade, então a falta de tranquilidade não é, necessariamente, um sintoma de uma vida afastada de Deus.

Paulo também tinha seus momentos de preocupação e angústia. Em 2 Coríntios ele diz assim:

Além disso, enfrento diariamente uma pressão interior, a saber, a minha preocupação com todas as igrejas. Quem está fraco, que eu não me sinta fraco? Quem não se escandaliza, que eu não me queime por dentro?

2 Coríntios 11:28-29

Quer dizer que Paulo se preocupava? Sim, se preocupava, diariamente, ele diz. Aqui ele menciona uma de suas preocupações, que era a preocupação com as igrejas que ele fundou. Ele sentia fortemente a pressão da responsabilidade que ele tinha sobre essas igrejas, então, quando elas falhavam em algo, quando elas balançavam na fé, aquilo o angustiava muito.

Mesmo Jesus teve esse tipo de experiência em seu espírito. Eu não sei com que frequência Jesus ficava inquieto por causa de alguma angústia sua, mas eu sei que pelo menos durante uma noite isso aconteceu, que foi na noite em que ele foi traído, horas antes de ser preso, quando ele estava com a alma profundamente triste, numa tristeza mortal (Mt 26:38), e ele passou a noite em claro repetindo a mesma oração: “Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice” Mateus 26:39, “Pai, se queres, afasta de mim este cálice” Lucas 22:42, “Aba, Pai, tudo te é possível. Afasta de mim este cálice” Marcos 14:36. Essa é uma oração legítima e sincera de alguém que está angustiado pelo futuro que o aguarda, e está apresentando seu pedido de livramento a Deus, sem que haja pecado em momento algum. Pelo contrário, Jesus fez justamente aquilo que nós devemos fazer quando nós nos encontramos ansiosos por algum motivo, que é lançar a ansiedade sobre Deus e confiar sua vida à ele.

Então, existe uma diferença entre “andar ansioso” e “ficar ansioso”. Andar ansioso é viver ansioso; é estar constantemente ansioso, constantemente preocupado, inquieto, sem paz por causa das incertezas da vida. Não é assim que nós devemos andar. Agora, ficar ansioso é normal; é ter momentos de preocupação, ter períodos de inquietação e falta de tranquilidade por causa das incertezas da vida. Isso pode e vai acontecer. Mas, para essas circunstâncias, nós temos o remédio da oração para impedir que a ansiedade faça morada na nossa mente. E então, como diz Paulo, a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o nosso coração e a nossa mente em Cristo Jesus.

Em seguida, para fechar suas orientações sobre como cultivar um espírito alegre e sem ansiedade, Paulo orienta os Filipenses, primeiro, a serem seletivos quanto ao tipo de coisa com o qual eles vão ocupar as suas mentes e, segundo, a colocarem em prática as boas obras que eles aprenderam de Paulo.

Então, primeiro, sobre o que pensar. Ao invés de ficar remoendo preocupações e alimentando a ansiedade, os Filipenses deveriam ocupar suas mentes com:

…tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas.

Filipenses 4:8

Ou seja, depois de lançar sobre Deus os pensamentos que os deixavam ansiosos através da oração e da súplica, os filipenses deveriam ocupar sua mente com outras coisas, coisas verdadeiras, nobres, corretas e todas com todas as demais qualidades citadas por Paulo. Eu creio que, em primeiro lugar, Paulo esteja se referindo às verdades bíblicas, porque elas são as coisas que mais claramente satisfazem todas essas condições: a palavra de Deus é verdadeira? É nobre? É correta? É pura? É amável? É de boa fama? Tem algo de excelente? É digna de louvor? Sim, para todas essas coisas. Então nós devemos preencher nossa mente com ela, lembrar e relembrar as verdades bíblicas, ouvir e ouvir de novo, ler e ler de novo, memorizá-la, meditar nela, enfim. Devemos nos encher da palavra de Deus.

E esse enchimento com a palavra de Deus, eu creio, pode ser feito de diferentes formas, inclusive formas que nos agradam e que nos entretem: pode ser ouvindo e cantando músicas cristãs, pode ser lendo histórias de ficção que nos inspiram a ser mais parecidos com Cristo, como O Peregrino, pode ser assistindo filmes, séries e desenhos que ilustram as verdades bíblicas (como The Chosen, O Príncipe do Egito e várias outras produções cinematográficas), pode ser apreciando pinturas, vitrais, murais e afrescos de igrejas antigas que retratam cenas bíblicas. Enfim, as artes que bebem diretamente da fonte da palavra de Deus também nos ajudam a preencher a nossa mente com as puras e nobres verdades bíblicas.

E, indo um pouco mais além, vez ou outra, nós conseguimos encontrar produções culturais não necessariamente cristãs mas que também nos remetem à verdades bíblicas: músicas que falam das belezas naturais da criação de Deus, filmes que valorizam a moral cristã, livros que nos dão bons conselhos que tem fundamento bíblico, ainda que o autor não acredite nisso. Eu só estou dando alguns poucos exemplos, mas existem muitas e diferentes formas de alimentarmos e cultivarmos na nossa mente pensamentos verdadeiros, nobres, corretos, puros, amáveis, de boa fama, excelentes e louváveis.

Sobre o consumo de cultura não-cristã, chama minha atenção que Paulo, no seu discurso em Atenas, em Atos 17, ele versos de uma poesia estoica que dizia: ‘Pois nele vivemos, nos movemos e existimos. Também somos descendência dele’. Eu suspeito que aquele trecho da poesia estoica ficou na mente dele porque em algum momento ele leu e achou bonita. É um jeito profundo de falar sobre a divindade. A diferença é que ele entende a divindade não como sendo o universo, com sua providência impessoal, como os estoicos achavam, mas como uma pessoa que sustenta todas as coisas. Curiosamente, João Calvino, que é conhecido, entre outras coisas, pelos seus muitos comentários bíblicos (ele comentou boa parte dos livros da bíblia, que eu sempre consulto pras minhas aulas), também apreciava a literatura estoica, e o primeiro comentário que ele escreveu na vida não foi de um livro da bíblia, mas de um livro de um autor estoico chamado Sêneca. Calvino sabia separar o que era um bom conselho da filosofia estoica do que era puro paganismo e, portanto, descartável. Nós também, sempre que estamos em contato com expressões artísticas do mundo, devemos ter esse mesmo olhar crítico, não aceitando nada que não passe pelo crivo da palavra de Deus, mas também sem jogar fora a água suja com o bebê junto. Agora, convenhamos, que tem muita coisa, muita música, muito filme, muito livro produzido que não tem nada de bom para ser aproveitado. Nós não devemos usar a liberdade que nós temos de fazer bom proveito das coisas desse mundo como pretexto para ouvir uma música profana, e dizer que nós só retemos o que é bom dela. Não. Isso daí já não é liberdade, é libertinagem mesmo.

Enfim, isso é só um parêntesis sobre formas agradáveis de ocupar a nossa mente com coisas boas. O ponto principal que nós devemos ter em mente é que as coisas boas com as quais nós devemos ocupar a nossa mente, se forem boas mesmo, terão respaldo na palavra de Deus e, portanto, terão essas qualidades mencionadas por Paulo.

A segunda orientação de Paulo nessa parte final sobre como vencer a ansiedade é:

Ponham em prática tudo o que vocês aprenderam, receberam, ouviram e viram em mim. E o Deus da paz estará com vocês.

Filipenses 4:9

Então, para vencer a ansiedade, além de ocupar a nossa mente com coisas boas também devemos ocupar o nosso tempo com coisas boas. Colocar em prática o ensino de Paulo é isso, é ocupar o nosso tempo fazendo coisas que agradam a Deus, seguindo o exemplo dos apóstolos. O que, por exemplo? Cultivando relacionamentos com irmãos, através de encontros para conversar, para comer, para orar, para jogar peteca; servindo nas diferentes áreas de serviço na igreja, seja na diaconia, seja no louvor, seja na organização de eventos, seja na missão; tirando parte do seu tempo para ajudar o próximo a fazer uma mudança, a consertar um eletrônico, a aprender uma habilidade que você domina, a cuidar da saúde; trabalhando, exercendo uma profissão honesta, oferecendo um bom serviço para os seus clientes e empregadores, ganhando dinheiro para sustentar a você e sua família e não dar trabalho para os outros. Todas essas e muitas outras são formas de colocar em prática o ensino dos apóstolos porque são expressões de amor ao próximo e de obediência a Deus. A pessoa que ocupa o seu tempo fazendo coisas boas está, digamos assim, ocupada demais com o hoje para se preocupar com o amanhã. Quando nós estamos focados numa atividade, seja trabalhando, seja conversando, seja ajudando alguém, não sobra tempo para ficarmos remoendo preocupações na nossa mente. No final do dia, então, depois de cansados com tudo o que fizemos, nem energia nós temos para isso. Então é bom e saudável nós nos mantermos ocupados. Isso não significa trabalhar 12 horas por dia, ou se dedicar integralmente ao serviço na igreja. Mas é ter compromisso com coisas boas. É fazer bom uso do tempo que Deus nos dá.

Aí então, ocupando nossa mente com coisas boas e nosso tempo fazendo o que é bom, Paulo diz: “E o Deus da paz estará com vocês”. Nós experimentaremos isso, nós perceberemos que, não apenas a paz de Deus estará conosco, mas que o próprio Deus da paz estará conosco, sempre perto de nós, na nossa mente e nas nossas realizações, “pois é Deus quem efetua em nós tanto o querer quanto o realizar” (Filipenses 2:13).

Por fim, o que nós podemos aprender com esse texto notável? Cada um de nós lutamos com nossos próprios ladrões da alegria e da paz. Como que o ensino de Paulo nos ajuda individualmente a lidar com isso? Acho que aqui nós temos uma das lições mais importantes da psicologia bíblica, que é que existe uma relação bastante direta entre o aquilo com o que nós ocupamos a nossa mente e nossas mãos e o nosso estado de espírito. Primeiramente, o que é um estado de espírito? Um estado de espírito é uma experiência interior, pessoal e intransferível que se tem não no corpo, mas na alma, no espírito. Exemplos: alegria, tristeza, medo, raiva, ansiedade, etc. Os estados de espírito se diferem de outras experiências interiores, pessoais e intransferíveis, como da dor física, do frio, do calor, da fome e da sede, porque essas são experiências sensoriais do corpo, mas a alegria e a tristeza se sentem na alma, de modo independente do que está sendo sentido no corpo.

O mais comum é chamar alegria e tristeza e outros estados de espírito de emoção, e eu não ligo se alguém preferir essa palavra. Mas eu, pessoalmente, evito usar a palavra emoção nesse contexto de hoje porque, normalmente, na minha percepção, as pessoas usam a palavra emoção para se referir a uma experiência momentânea no nosso interior, e essa experiência tem que ter uma certa intensidade para sequer ser nomeada. Mas eu estou falando, e Paulo também está, de algo mais duradouro, e não necessariamente intenso, embora às vezes possa ser. Então, para evitar essa conotação de uma experiência temporária e intensa, eu prefiro usar a expressão estado de espírito para me referir à alegria, tristeza, medo, ansiedade, paz, etc.

E como nós podemos cultivar um espírito alegre, sem ansiedade e em paz, segundo Paulo? Resposta: Ocupando a nossa mente e nosso tempo com aquilo que vai nos trazer alegria e paz. A parte de ocupar a mente com o que nos traz alegria e paz passa tem uma etapa preliminar que é a de desocupar a nossa mente daquilo que tira nossa alegria e nossa paz. Se você quer colocar novos móveis numa casa você primeiro tem que tirar os velhos, não é assim? E isso se faz através da oração. A oração é o momento em que nós lançamos nossas ansiedades diante de Deus. É quando nós dizemos: “Deus, isso aqui está me preocupando. Por favor, toma, eu te entrego essa situação, suplicando que o SENHOR cuide disso para mim, porque eu não sei o que fazer”.

Depois que você desocupa a sua mente disso, na própria oração você já começa a ocupar a sua mente com o que vai te tranquilizar, porque Paulo diz para nós apresentarmos nossos pedidos a Deus com ações de graças. Ou seja, a oração é também momento de lembrar dos motivos de gratidão que você tem, e você SEMPRE tem. É momento de você se lembrar que você pode ficar tranquilo em relação às coisas que estão te preocupando porque, no passado, Deus cuidou de você. A começar pela salvação provisionada em Jesus Cristo, que morreu em nosso lugar, pelo Espírito Santo que nos santifica, pela esperança de vida eterna com Jesus e com todos os irmãos. Mas também pelas coisas dessa vida, pelas conquistas, pelos relacionamentos, pelo pão de cada dia, pelo descanso no final de semana. Trazer à memória essas coisas vai te lembrar dos motivos que você tem para confiar no Deus a quem você está pedindo para te livrar da ansiedade.

Depois da gratidão na oração, a renovação dos móveis da sua mente continua, segundo Paulo, ocupando o pensamento com o que é verdadeiro, nobre, correto, puro, amável, de boa fama, excelente e digno de louvor. Isso sem dúvida significa, em primeiro lugar, ocupar com a palavra de Deus, a história que ela nos conta, as promessas que Deus nos faz, a instrução que ela nos dá, a sabedoria que ela nos ensina, etc. E significa, em segundo lugar, que nós devemos ser intencionais e seletivos com aquilo que nós apreciamos no que se refere à música, livros, filmes, séries, jogos, podcasts, palestras, aulas, conversas, enfim, qualquer coisa que vá influenciar o nosso pensamento. Nós devemos ser criteriosos com o que nós vamos deixar entrar na nossa mente, e Paulo lista essas qualidades que nós devemos procurar nas ideias, nas opiniões, nas proposições sendo veiculadas por esses meios de comunicação.

Além de ocupar a mente com aquilo que é bom, nós devemos ocupar o nosso tempo com aquilo que é bom. Ou, em outras palavras, ocupar as nossas mãos com aquilo que é bom. É colocar em prática as boas obras que Jesus e os apóstolos nos ensinam, é dedicar tempo para servir às outras pessoas com os dons que Deus nos deu. Isso inclui o seu trabalho, através do qual você se torna independente e capaz de sustentar sua família e ajudar pessoas em necessidade, inclui cuidar dos filhos, inclui tocar na banda da igreja, inclui servir na diaconia, inclui receber os irmão em casa para um momento de comunhão, inclui levar doações para quem precisa, inclui tudo isso e tudo o mais que se faz por amor a Deus e ao próximo.

Então a visão bíblia sobre o estado de espírito das pessoas é que ele está fortemente relacionado com aquilo com o que nós ocupamos a nossa mente e o nosso tempo. O estado de espírito de pessoas cuja mente está sempre ocupada com as incertezas dessa vida, ou de pessoas que não se ocupam, no sentido de que não se dispõem a servir, não empregam as suas mãos fazendo algo útil, naturalmente, será de ansiedade e falta de paz. O estado de espírito de pessoas que descansam em Deus, que pensam nas coisas de Deus e vivem uma vida de obediência a Deus, naturalmente, será de paz e alegria. Novamente, não é que isso é uma fórmula mágica que, se você aplicar, você nunca mais vai se entristecer, nunca mais vai se preocupar, nunca mais vai ficar ansioso. Não. Mas é o caminho para você deixar de ser uma pessoa constantemente ansiosa e se tornar uma pessoa que tem alguns momentos normais de ansiedade. Ou, mais positivamente, é o caminho para você deixar de ser uma pessoa que de vez em quando tem momentos de alegria para se tornar uma pessoa que sempre, repito, sempre, encontra motivos para se alegrar no SENHOR, independentemente das suas circunstâncias. Assim como Paulo, nós também podemos e devemos cultivar a mesma alegria constante, porque nós temos o mesmo Deus cuidando de nós e a mesma esperança de vida eterna pela graça de Jesus Cristo.