Preto e branco:
uma mistura perfeita
"Que incrível, Sabichona! Quero muito saber que método é esse que você aprendeu!" (Curiosa)
8 de maio de 2025. Fábula baseada em fatos reais.
1. Sabichona
Andando pelas regiões desertas deste mundo, achei-me em certo lugar onde havia uma caverna; ali deitei-me para dormir e, dormindo, tive um sonho. Vi três ovelhas que se reuniram em uma biblioteca a céu aberto, onde todos os livros eram brancos. Uma delas disse:
— Amigas, esta semana descobri um método de leitura fantástico. Através dele, consigo ler e entender tudo o que leio com muito mais clareza. Se quiserem, posso ensiná-lo a vocês.
— Que interessante, amiga! Como é isso? — perguntou outra, cujo nome era Curiosa.
— Antes de explicar o método, permitam-me demonstrá-lo — disse a primeira ovelha, que se chamava Sabichona.
Toda semana as três se reuniam naquela biblioteca para ler e conversar sobre um dos livros. Ali havia um pequeno palco para leituras públicas. Sabichona se levantou de onde estava, subiu no palco, fechou os olhos e disse à Curiosa:
— Abra o livro desta semana em uma página qualquer e entregue-o a mim sem me dizer em qual passagem você o abriu.
Assim fez Curiosa, animada com a expectativa de testemunhar algo extraordinário. A terceira ovelha, meio desconfiada, abriu outro exemplar do livro na mesma página para acompanhar a leitura.
Então, de olhos fechados e com o livro em mãos, depois de alguns segundos de concentração, Sabichona começou a ler:
Foi assim o nascimento de Salvação: Agraciada, sua mãe, estava prometida em casamento a Carpinteiro, mas, antes que se unissem, achou-se grávida pelo Espírito Santo. Por ser Carpinteiro, seu marido, um carneiro justo, e não querendo expô-la à desonra pública, pretendia anular o casamento secretamente. Mas, depois de ter pensado nisso, apareceu-lhe um anjo do Senhor em sonho e disse: “Carpinteiro, filho de Ruivo, não tema receber Agraciada como sua esposa, pois o que nela foi gerado procede do Espírito Santo. Ela dará à luz um cordeiro, e você deverá dar-lhe o nome de Salvação, porque ele salvará o seu rebanho dos seus pecados".
Publicano 1:18-21 (NVI)
Enquanto Sabichona lia, Curiosa e a outra ovelha estavam visivelmente impressionadas. Olhavam confusas uma para a outra, certificavam-se de que Sabichona estava mesmo de olhos fechados, e conferiam constantemente o livro para ver se estava tudo certo. Para surpresa de ambas, sim, estava tudo certo.
Antes que Sabichona pudesse prosseguir, Curiosa a interrompeu:
— Uau! Não consigo acreditar! Como você está fazendo isso?
Percebendo que conseguira despertar o interesse das amigas pelo método, Sabichona abriu os olhos, fechou o livro e respondeu:
— O método requer que nós leiamos de olhos fechados. Não é fácil, mas, com a prática, qualquer um consegue fazer isso.
A terceira ovelha estava sem reação, não acreditando no que acabara de ver. De repente, num momento de eureka, achou ter descoberto a pegadinha:
— Haha! Por um instante vocês até conseguiram me enganar! Mas é óbvio que Sabichona memorizou esse trecho e combinou com Curiosa de lhe entregar o livro aberto nesta página.
Disse Curiosa:
— Juro que não, Prudente! — pois esse era seu nome — Meu espanto é real! Nunca vi nada igual na minha vida!
Sabichona também retrucou:
— Não é pegadinha. Faz parte do método do qual estou falando.
Ainda cética, Prudente desafiou Sabichona:
— Está bem. Se é assim, demonstre-nos o método mais uma vez, mas agora eu é que vou abrir o livro numa página qualquer, e você terá que ler a passagem de olhos vendados.
Sabichona concordou, e Curiosa se entusiasmou com a oportunidade de ver mais uma vez aquilo que parecia ser um truque de mágica.
Então Prudente pegou um lenço preto e amarrou-o na cabeça de Sabichona, tapando-lhe os olhos. Abriu dois exemplares do livro na mesma página, entregou um deles à Sabichona e ficou com o outro para checar se tudo seria lido corretamente. Sem hesitar, Sabichona limpou a garganta e disse:
— A passagem que tenho diante de mim está mais para o final do livro, depois da ressurreição de Salvação, em que um anjo diz às ovelhas no sepulcro:
“Não tenham medo! Sei que vocês estão procurando Salvação, que foi crucificado. Ele não está aqui; ressuscitou, como tinha dito. Venham ver o lugar onde ele jazia. Vão depressa e digam aos discípulos dele: Ele ressuscitou dentre os mortos e está indo adiante de vocês para a Galileia. Lá vocês o verão. Notem que eu já os avisei”.
Publicano 28:5-7 (NVI)
Mais uma vez, Sabichona lera tudo corretamente. Então Curiosa exclamou novamente:
— Que incrível, Sabichona! Quero muito saber que método é esse que você aprendeu! — e, virando-se para Prudente, disse — Viu só? Não era enganação.
Prudente estava sem palavras. Então reconheceu:
— Realmente, não tenho como negar. Este seu método de leitura é algo extraordinário! Estou curiosa para saber mais sobre ele.
— Amigas, vocês estão maravilhadas porque eu li tudo perfeitamente de olhos vendados. Mas essa não é a parte mais interessante deste método — disse Sabichona enquanto removia o lenço de sobre os olhos.
— Ora, se essa não é a parte mais impressionante, qual é então? — perguntou Curiosa.
— Lembram-se que eu disse que o método me permite entender tudo o que leio com muito maior clareza? Essa sim é a parte mais interessante que eu gostaria de demonstrar a vocês. Então agora gostaria de compartilhar um pouco do que entendi dos textos que acabo de ler — respondeu Sabichona.
— Certo. Estamos ouvindo — disse Prudente.
Então Sabichona começou a explicar:
— Pois bem. Vou começar pelo primeiro trecho. Naquela passagem, Publicano escreve um pouco sobre as circunstâncias em que nasceu nosso cordeiro amado, começando a sua narrativa relatando como Agraciada, sua mãe, engravidou. Ele nos conta que Agraciada, ainda jovem e noiva de Carpinteiro, havia sido forçada a ter relações com um outro que não era seu marido, que a engravidou. A esse tal, Publicano chama de "Espírito Santo", e o faz por duas razões. Primeiro, para preservar a privacidade de Agraciada, pois seria muito vergonhoso para ela ter esse fato exposto publicamente a todos. E segundo para exaltar a importância de Salvação diante do leitor, para que ele entenda desde o início da narrativa que Salvação foi um cordeiro extraordinário. Então, quando Carpinteiro tomou conhecimento do ocorrido…
— Espere — interrompeu Prudente — Acho que entendi errado. Você disse que Agraciada foi forçada a ter relações com outro que não era seu marido?
— Isso mesmo. Algum problema? — disse Sabichona.
Tanto Curiosa quanto Prudente estavam perplexas, pois já haviam lido aquele livro várias vezes, e nunca haviam entendido essa passagem daquela forma. Mas a perplexidade de Curiosa era de quem está fascinada com algo novo, enquanto que a de Prudente era de quem literalmente não acredita no que está ouvindo. Aquela explicação lhe soou muito estranha, para não dizer ridícula e até desrespeitosa com Publicano, o autor do livro.
Mas, ao mesmo tempo, Prudente estava maravilhada com a habilidade de leitura demonstrada pela amiga. Então resolveu deixar de lado o seu ceticismo por um momento e dar um voto de confiança para Sabichona.
— É só que nunca havia considerado essa possibilidade de interpretação — respondeu Prudente.
— É, nem eu — concordou Curiosa.
— Entendo a surpresa de vocês. Antes de adotar esse método de leitura, essa interpretação também nunca havia me ocorrido. Mas aprendi que quando fechamos os olhos para o que está escrito nossa compreensão do texto se expande — disse Sabichona.
— Interessante. Eu jamais pensaria nisso — disse Curiosa — Pode prosseguir. O que mais você entendeu?
— Bom, sobre o primeiro trecho, eu só ia completar que quando Carpinteiro tomou conhecimento daquela tragédia, sua vontade inicial foi desfazer o noivado, pois não queria assumir um filhote que não fosse seu. Mas foi convencido por uma ovelha piedosa, figuradamente identificada como um anjo, que a atitude mais nobre a se tomar era seguir adiante com o casamento, pelo bem de Agraciada e do cordeirinho que iria nascer — disse Sabichona.
— Nossa, você está me fazendo repensar muito daquilo que eu entendia sobre esse texto — disse Curiosa.
— Tive essa mesma reação quando ouvi pela primeira vez o que os proponentes do método diziam sobre o livro — disse Sabichona — Devo meu novo entendimento a eles.
Prudente estava bastante desconfortável com o entendimento exposto por Sabichona. Em meu sonho, vi que ela estava mergulhada em muitos pensamentos, mas não falou nada. Enquanto refletia sobre o que estava ouvindo, a conversa continuou entre Sabichona e Curiosa.
2. Curiosa
Disse Curiosa:
— Sabe o que achei mais interessante dessa interpretação? A maneira como ela torna a narrativa mais familiar. A interpretação tradicional, ao contrário disso, descreve um cenário bastante fantástico e extraordinário, que deixa o leitor se perguntando se essa história é, realmente, verdadeira. Afinal de contas, onde já se viu uma ovelha virgem ficar grávida, e um cordeiro ser visitado por seres celestiais? Mas, se não nos apegarmos ao que está sendo literalmente dito sobre a gravidez de Agraciada e a orientação recebida por Carpinteiro, fica aberta a possibilidade de que a história tenha um sentido mais ordinário, e que Publicano esteja descrevendo uma situação plausível, ainda que trágica. Como resultado, o leitor ganha maior confiança de que aquilo que ele lê é, realmente, verdadeiro e digno de confiança.
— Mas tenho uma dúvida — continuou Curiosa. (Apesar de ser apressada em abraçar tudo o que era novo e lenta para perceber os perigos daquilo que abraçava, ela era também bastante questionadora, o que a ajudava a, eventualmente, obter clareza das coisas) — Pelo que estou entendendo, o método consiste em fechar os olhos para o que está escrito, para que nossa compreensão do texto aumente. Porém, uma vez feito isso, o que me impede de dar absolutamente qualquer interpretação ao texto que eu estiver lendo? Por exemplo, o acontecimento narrado por Publicano poderia ser um pouco diferente daquilo que você nos expôs: ao invés de Agraciada ter sido forçada a ter relações com um outro que não era Carpinteiro, ela poderia ter se envolvido com esse outro voluntariamente, traindo o seu noivo com ele.
— Muito bem, Curiosa. Essa é uma ótima pergunta, pois me dá a oportunidade de explicar mais aprofundadamente os princípios do método. Deixe-me apenas pegar meu manual para que eu não me esqueça de nenhum dos seus pontos principais — disse Sabichona.
Nesse momento, notei que Sabichona trazia uma bolsa pendurada no pescoço. Dela tirou um pequeno livrinho preto de poucas páginas. Na capa, estava escrito bem grande:
BLACK AND WHITE: A PERFECT BLEND,
que traduzido significa “PRETO E BRANCO: UMA MISTURA PERFEITA”. Curiosa e Prudente já sabiam que Sabichona era muito inteligente, mas quando viram que o manual era numa língua que não conheciam ficaram ainda mais convencidas disso.
Sabichona abriu o livrinho na página que queria e começou a explicar:
— Primeiramente, um esclarecimento: fechar os olhos para o que está escrito é apenas o primeiro passo do método. Mas, para uma leitura saudável de um texto, esse primeiro passo deve ser acompanhado da aplicação de três regras básicas de interpretação.
— A primeira regra é a regra da não-estranheza. Muitas vezes quando estamos lendo um dos nossos livros nos deparamos com algo dito pelo autor que, à primeira vista, nos parece estranho, fora do comum ou extraordinário demais para ser verdade. Nesses casos, o que devemos fazer é rejeitar essa compreensão rasa, simplória e ingênua do texto e procurar uma interpretação que faça mais sentido. Como você notou, Curiosa, o entendimento que lhes expus da gravidez de Agraciada oferece um retrato mais familiar e provável do que deve ter acontecido. Essa familiaridade se deve à aplicação da regra da não-estranheza.
— A segunda regra é que o sentido do texto deve ser compatível com a forma de escrita. Essa regra é complementar à regra anterior, e é mais facilmente explicada com uma analogia entre a entrega de uma mensagem e a entrega de uma encomenda. Tanto mensagens escritas quanto encomendas são entregues em embalagens. No caso de uma mensagem escrita, a embalagem é a forma com que o autor escreve aquela mensagem. Algumas formas são mais literais e diretas, outras são mais figuradas e dão mais voltas. Mas, assim como não é possível que um porta-aliança seja usado para entregar um buquê de rosas, também certas formas de escrita não se adequam bem a certas mensagens.
— Na prática, isso significa que, uma vez que encontramos o entendimento mais provável de um texto estranho, devemos olhar para a embalagem em que aquela mensagem está vindo e identificar que tipo de embalagem é aquela, adequando-a à mensagem. No caso da narrativa que estamos discutindo, Publicano certamente não estava sendo literal em sua escrita, pois a forma literal nos conduz exatamente à interpretação estranha que deve ser rejeitada. Concluímos, portanto, que ele estava falando de modo figurado, e facilmente podemos encontrar razões para isso, como já demonstrei.
— Essa segunda regra é importante porque existem alguns críticos do método que dizem que, ao ler de olhos fechados, nós estamos rejeitando aquilo que o autor escreveu e suas intenções. Isso não poderia ser mais falso! O método dá, sim, a devida importância à embalagem que o autor escolheu para entregar sua mensagem, e parte importante dele é compreender que embalagem é aquela.
— Por fim, a terceira e última regra é esta: o expert sempre tem razão. Devemos ter a humildade de reconhecer que os mais estudados sabem mais. Isso significa, em primeiro lugar, que quando há dúvidas sobre como um texto deve ser entendido, devemos sempre preferir o entendimento proposto pelos doutores do que um entendimento proposto por leigos. E, em segundo lugar, quando estamos lendo um livro que conta histórias alegadamente verídicas de uma determinada época, devemos consultar múltiplos autores da mesma época contando a mesma história, dando maior razão aos mais sábios e eloquentes ao invés de aos iletrados e incultos.
— Sendo assim, Curiosa, respondendo à sua pergunta original, o que nos impede de dar absolutamente qualquer interpretação que seja a um texto quando aplicamos este método de leitura são essas três regras: a interpretação não pode ser estranha, deve ser coerente com a forma de escrita adotada pelo autor, e, quando possível, deve estar baseada na autoridade dos mais sábios.
Respondeu Curiosa:
— Tudo isso faz bastante sentido, e essas regras me parecem razoáveis. Mas, ainda assim, não está claro para mim como decidir entre entendimentos igualmente possíveis de um mesmo texto. Pois, a meu ver, a interpretação alternativa da qual falei, em que Agraciada teria traído Carpinteiro com outro durante o noivado, não fere nenhuma dessas regras. Em primeiro lugar, ela descreve uma situação plausível de acontecer em qualquer época e lugar. Em segundo lugar, ela se adequa bem à forma figurada de interpretação sugerida por você. E em terceiro lugar… uhm… bom, não sei qual a opinião dos experts sobre isso. Você sabe?
— Sim — respondeu Sabichona — As mais bem reputadas estudiosas deste livro entendem essa passagem da forma como lhes expus — e brincou, com ar de superioridade — Além disso, se tivéssemos que decidir entre uma interpretação dada por mim e uma por você, nós duas sabemos quem é mais estudada.
— Haha! Certo, você venceu. Estou achando o método fascinante, só estou um pouco incerta se ele é ou não apropriado. Mas suponho que essa incerteza se deve à minha ignorância, e não a alguma deficiência do método — disse Curiosa.
— Seu receio é compreensível, mas garanto que não há razão para isso — disse Sabichona. E sugeriu: — Que tal você mesma tentar aplicar o método na leitura daquela segunda passagem que li? Acho que isso vai ajudá-la a perder o seu receio.
— Gostaria muito! Mas como faço? Nunca li nada de olhos fechados. Nem sabia que isso era possível! — respondeu Curiosa.
— Esse primeiro passo é de fato o mais difícil. Mas depois você verá que o entendimento virá com facilidade. Nossos pais nos ensinam a ler de olhos abertos porque acham que precisamos de iluminação para compreender o que lemos. Mas isso não é verdade. Você vai ver. Venha, suba aqui e feche os olhos. — disse Sabichona.
Assim fez Curiosa. Sabichona entregou à ela o livro aberto na segunda passagem e disse:
— Aí está. Pode ler.
Então Curiosa tentou ler. Espremeu os olhos, inclinou a cabeça, franziu a testa, levantou a sobrancelha e fez várias outras caretas, mas sem sucesso. Frustrada, abriu os olhos e disse:
— Não estou conseguindo. O que estou fazendo de errado?
Respondeu Sabichona:
— O segredo para ler de olhos fechados está em se desapegar do texto que está diante de você. Lembre-se das orientações de leitura que acabo de compartilhar com vocês e você conseguirá ver tudo muito bem, como uma coruja que enxerga melhor à noite. Você consegue! Acredite em si mesma!
Encorajada pelas palavras de Sabichona, Curiosa resolveu tentar mais uma vez.
De repente, assim que ela fechou os olhos para ler, eu comecei a ver as coisas a partir de sua perspectiva, o que me permitiu enxergar por um momento o que se passava nos olhos de sua mente. Foi isto o que vi: A princípio, tudo estava escuro. Então, depois de alguns segundos, vi se materializar um livro bem diante de mim, que pensei ser o livro de Publicano, pois se parecia muito com ele. Tudo era igual: a cor, a capa, a fonte, a diagramação, o texto, etc. Mas, ao observá-lo mais atentamente, notei que ele não era exatamente branco, mas acinzentado, de um cinza bem sem graça. Além disso, a qualidade da impressão não era muito boa. Várias palavras estavam desbotadas ou borradas, algumas quase ilegíveis.
Disso entendi que quando uma ovelha lia um livro branco com a mentalidade do livro preto, o livro que ela na verdade estava lendo era cinza. Mas este livro cinza só existe na imaginação de quem usa o método, e não possui nenhum vínculo com a realidade concreta dos fatos. Também entendi que as palavras menos legíveis eram justamente aquelas que causavam mais estranheza no leitor. Para que ele conseguisse lê-las corretamente era necessário um esforço maior de imaginação.
Depois desse rápido vislumbre retornei à minha perspectiva, e vi que Curiosa começou a ler. Gaguejou um pouco no início, mas leu tudo até o final:
“Na... na... não tenham medo! Sei que vo... vo... vocês estão procurando Salvação, que foi cruci... ci... ficad... do. Ele não está aqui; ressuscitou, como tinha dito. Venham ver o lugar onde ele jazia. Vão depressa e digam aos discípulos dele: Ele ressuscitou dentre os mortos e está indo adiante de vocês para a Galileia. Lá vocês o verão. Notem que eu já os avisei”.
Pu... Public.. cano 28:5-7 (NVI)
Depois de alguns segundos processando aquilo que acabara de acontecer, Curiosa abriu os olhos e fechou o livro. Vi, então, uma drástica mudança no seu semblante. Seu rosto ficou bastante sério e já não transparecia a animação de antes. Curiosa parecia estar um tanto perturbada com o que se passara em sua mente. Espantada consigo mesma, disse bem baixinho:
— Uou.
Orgulhosa de Curiosa, Sabichona a parabenizou:
— Muito bem, Curiosa! Eu sabia que você conseguiria!
— Nunca imaginei que fosse possível ler de olhos fechados. Mas agora vejo que é verdade, pois pude enxergar tudo claramente, como se tivesse o livro de Publicano bem diante de mim — disse Curiosa, ainda em estado de choque.
— Exatamente! E o que você entendeu do que leu? — perguntou Sabichona.
Hesitante e sem entusiasmo, Curiosa respondeu:
— Entendi que depois que Salvação foi crucificado, as ovelhas que o seguiam ficaram de luto por três dias. Mas então, no terceiro dia, enquanto choravam no sepulcro a morte do seu mestre, ocorreu-lhes o pensamento de que não precisavam continuar chorando, pois Salvação continuava vivo em seus corações. É como se ele tivesse, de fato, ressuscitado, voltado à vida, e desta vez estava ainda mais próximo, dentro de cada uma delas. Isso as alegrou de tal maneira que se sentiram fortemente impelidas a voltar à cidade e espalhar essa mensagem de encorajamento aos demais discípulos. Foi isso que entendi.
— Excelente! Vejo que sua compreensão do texto está perfeita, pois em nada difere da minha — disse Sabichona.
Curiosa aparentava estar emocionalmente confusa, oscilando rapidamente entre satisfação de ter conseguido aquela façanha, e decepção com aquilo que o método lhe fez ver. Não sabia exatamente se deveria ficar alegre ou triste com o que acabara de fazer, mas tendia mais para tristeza do que para alegria.
Então, Sabichona virou-se para Prudente e perguntou:
— E você, Prudente? Quer tentar aplicar o método também?
3. Prudente
Prudente estava com o olhar fixo já a algum tempo, distraída com os próprios pensamentos, refletindo sobre tudo o que estava ouvindo. Como ela não esboçou resposta, Sabichona tentou novamente:
— Prudente?
Dessa vez conseguiu a atenção dela. Depois de piscar algumas vezes para lubrificar os olhos, Prudente olhou bem para Sabichona e Curiosa e disse:
— Minhas irmãs, como vocês sabem, eu não sou muito inteligente. Mas, felizmente, quando alguém está dizendo algo tão escancaradamente falso, não é necessário muita inteligência para perceber. Perdoem a minha sinceridade, mas as interpretações dadas por vocês, a despeito do método utilizado ser fascinante, são claramente falsas.
Ao ouvir isso, Sabichona ficou muito surpresa com o fato de Prudente não compartilhar do mesmo entusiasmo de Curiosa com o novo método. Na verdade, Curiosa já não estava entusiasmada com o método, mas Sabichona nem notou essa sua mudança de espírito. Indignada, retrucou:
— Como assim? O que te faz pensar isso?
— Olha, com frequência eu tenho dúvidas de interpretação quando estou lendo os livros da nossa biblioteca. Mas, francamente, o livro de hoje em particular não é um livro de difícil entendimento. Para mim, é bem óbvio o que está sendo narrado nas passagens que vocês leram. Nunca tive dúvidas sobre elas. Mas não sei como convencê-las da interpretação correta, pois quando leio os textos em questão, é evidente que estou vendo algo que vocês não estão vendo — disse Prudente.
— Do que você está falando? O que você vê? — perguntou Sabichona.
— Vejo o Divino Espírito Santo agindo sobrenaturalmente na vida de Agraciada. Vejo anjos mensageiros de Deus conversando com Carpinteiro e com as ovelhas no sepulcro. Vejo Salvação literalmente ressurreto em corpo, indo se encontrar com seus discípulos na Galileia. Vejo todas essas coisas que este método heterodoxo as impede de ver. Nem parece que estamos lendo o mesmo livro! — respondeu Prudente.
— Ah, mas é claro! Qualquer um que leia de olhos abertos verá essas mesmas coisas. Eu também, quando me apego à letra morta e ignoro toda boa regra de interpretação, vejo apenas o que está na superfície do texto. Mas isso é prejudicial para nosso entendimento, pois bem sabemos que os nossos autores são excepcionalmente criativos em seus relatos. Com frequência fazem uso de formas literárias complexas para comunicar algo que vai muito além daquilo que se percebe à primeira vista. Isso exige de nós sofisticação para captar aquilo que desejam nos comunicar. Por isso o método que estou lhes apresentando é superior ao método tradicional, porque ele abre a nossa mente para verdades mais profundas, mas com o pé no chão — disse Sabichona.
— Nesse caso, as verdades mais profundas para as quais o seu método abriu a sua mente são que não existe Espírito Santo, nem anjos, nem ressurreição? — questionou Prudente.
— Você me entendeu mal. Eu jamais negaria a existência do Espírito Santo, ou de anjos, ou da ressurreição! Tais coisas existem! Elas só não são as realidades normalmente derivadas do método tradicional de leitura — disse Sabichona.
— Ou seja, o Espírito Santo não é uma pessoa divina, mas um carneiro imoral; os anjos não são seres celestiais mensageiros de Deus, mas ovelhas piedosas; e a ressurreição não é o retorno de um morto à vida, mas a constante lembrança dos que já foram? — perguntou Prudente.
— Prudente, você não sabe que palavras e expressões não possuem significado fixo? O seu significado é determinado pelo contexto em que aparecem. A expressão “espírito santo” não significa a mesma coisa em todas as passagens, nem a palavra “anjos”, nem a palavra “ressurreição" — disse Sabichona.
— Sim, eu sei disso. Não desconverse. Estou falando especificamente das passagens lidas. Diga-me: de acordo com sua leitura, o Espírito Santo naquela primeira passagem é ou não é um carneiro pecador? — insistiu Prudente.
— Eu sei o que você está tentando fazer. Você está focando em pontos específicos da minha fala e distorcendo-os. E agora tenta me fazer admitir que eu disse algo que eu nunca disse. Logo eu, que humildemente me dispus a compartilhar o meu conhecimento com vocês. Como retribuição à minha boa ação, você quer denegrir minha imagem, insinuando que eu seja um lobo, e não uma verdadeira ovelha! Eu poderia ficar ofendida com sua ingratidão, mas como sou uma boa ovelha, vou relevar essa sua falta de consideração. Ao contrário de você, eu sempre suponho o melhor das minhas irmãs, e sei que a sua reação se deve ao seu temperamento difícil, e não a malícia — respondeu Sabichona.
— Não posso negar que minhas impressões desse método não são boas. Na verdade são bem ruins. E de fato acho que essas interpretações dele derivadas só poderiam ser defendidas por lobos, e não por ovelhas. Mas não estou insinuando nada. Acontece que nós, ovelhas, também nos enganamos, e, portanto, é meu dever, ou melhor, é nosso dever, julgar todas as coisas e discernir o certo do errado. Como estou comprometida com a Verdade, sempre que ouço algo que parece distorcê-la, meu instinto é rejeitar. E enquanto as ouvia, várias de suas falas me causaram forte asco e repulsa. Como você pode, com naturalidade, sugerir que a concepção de Salvação seja resultado de uma atrocidade dessas? E você, Curiosa, como pode fazer igual, sugerindo que tenha sido fruto de uma imoralidade consensual de ambas as partes? — perguntou Prudente.
Envergonhada com a repreensão de Prudente, Curiosa baixou a cabeça.
Mas Sabichona retrucou:
— Olha, sinceramente, isso não me choca. Nossos livros falam de vários personagens de moral questionável mas que são importantes para a história de Salvação, tais como Patriarca (Gn 16), Ruivo (2Sm 11) e Rei-Rico (1Rs 11:18). Todos eles erraram muito, inclusive cometendo atos vergonhosos comparáveis aos que eu e Curiosa sugerimos. Mas isso só evidencia a plausibilidade dos relatos, e nem por isso eles ou seus descendentes deixam de ser importantes referências para nós hoje. Eu entendo que Agraciada tenha adquirido fama de inocência ao longo da história. Mas, se formos realistas, é possível que essa fama não se justifique.
— Mas como você pode tão facilmente ignorar a opinião massiva das ovelhas, tanto as que vivem quanto as que já se foram? Pois todas as ovelhas em todo lugar sempre acreditaram que a concepção de Salvação se deu através de uma ação sobrenatural de Deus, por meio do Espírito Santo, no ventre de Agraciada, exatamente como está escrito. Agora você quer me convencer de que isso está errado porque, na verdade, o texto, que explicitamente atribui a gravidez de Agraciada à ação do Espírito Santo, não está falando do Espírito Santo, mas de um carneiro ímpio? É óbvio que sua interpretação é extremamente forçada. Nem a nossa tradição nem o texto em si oferecem fundamento para esse entendimento — disse Prudente.
— Nem sempre podemos confiar naquilo que nos foi transmitido ao longo da história. Você, mais do que ninguém, deveria saber que devemos ter cautela antes de aceitar aquilo que nos é transmitido. As ovelhas que já se foram não tinham o mesmo conhecimento literário, histórico e científico que temos hoje, o que as coloca em desvantagem em relação a nós. Elas jamais conseguiriam chegar a esse novo método de leitura sem este conhecimento. E quanto às ovelhas do nosso tempo, poucas conhecem o novo método. A maioria só sabe ler de olhos abertos. Mas isso está mudando, graças ao trabalho de ovelhas como eu, que tem se empenhado na divulgação dele — disse Sabichona.
E continuou:
— Além disso, não posso deixar de notar também que você está criticando o método com base em subjetividades. Primeiro, você mencionou seus sentimentos de asco e repulsa em relação às nossas interpretações para contradizer o método. Mas seus sentimentos não determinam o que é verdade ou não. E agora você cita as opiniões de outras ovelhas que corroboram com a sua interpretação do texto. Mas nenhuma quantidade de opiniões é suficiente para estabelecer o correto entendimento de um texto. Senão eu poderia simplesmente citar ovelhas que concordam comigo e assim rebater de igual para igual o seu argumento.
— É curioso que você critique minha subjetividade, quando a primeira regra do seu método não poderia ser mais subjetiva. Pois quem é que determina o que é estranho ou não, senão a ovelha que utiliza o método? — perguntou Prudente.
— Ah tá. Vai dizer que você acha super normal que uma virgem fique grávida e que anjos apareçam para ovelhas e conversem com elas? É óbvio que existe um consenso universal em relação a isso, e o consenso é que esses eventos são qualquer coisa, menos normais. Não há subjetividade aqui — retrucou Sabichona.
— Sim, eu concordo que esses eventos são fora do comum e extraordinários. Porém, aquilo que o seu método chama de "estranho" é mais do que um evento fora do comum: ele é também duvidoso. Isso é o que justifica, pelo seu método, que tais narrativas sejam entendidas de formas diferentes do que está escrito. Pois se a narrativa tratasse de eventos apenas incomuns, mas não-duvidosos, não haveria necessidade de entendê-la de uma forma diferente da que está literalmente escrita. Por isso, de modo nenhum posso concordar que haja consenso em dizer que a concepção virginal pelo Espírito Santo seja estranha nesse sentido, pois embora extraordinária, ela não é duvidosa para as ovelhas de fé. Pelo contrário, o consenso delas é que este acontecimento é verdadeiro e digno de confiança. Por isso estou dizendo que a primeira regra é subjetiva: porque ela está fundamentada na dúvida, e ovelhas diferentes têm dúvidas diferentes. Eu e você somos exemplo disso — disse Prudente.
— Além disso — continuou Prudente —, a segunda regra do método também é subjetiva. Você simplesmente decidiu que Publicano estava usando uma linguagem figurada porque essa linguagem se conformava melhor à interpretação que você quis dar ao texto.
— Você fala como se o método tradicional de interpretação não fizesse a mesma coisa. Como você justifica que Publicano estava usando linguagem literal, senão com base na interpretação que você quer dar ao texto? — perguntou Sabichona.
— Sabichona, o que você está dizendo não faz sentido nenhum. Não é assim que a comunicação escrita funciona. Você está sugerindo que, sempre que lemos alguma coisa, independentemente do método de leitura utilizado, primeiro definimos qual a interpretação queremos dar ao texto, e depois determinamos se a linguagem usada pelo autor é literal ou figurada. Então quer dizer que se eu quisesse interpretar as palavras de Publicano como sendo uma receita de bolo de cenoura escrita em linguagem figurada eu poderia? — perguntou Prudente.
— Poderia, mas essa não é uma boa interpretação, pois você estaria transgredindo a terceira regra, de concordância com os experts. Ninguém em sã consciência sugeriria uma interpretação absurda dessas. — respondeu Sabichona, em tom de deboche. E acrescentou: — Está vendo como as regras se complementam harmoniosamente para uma leitura saudável do texto?
— No final das contas, então, a palavra final a respeito de qualquer interpretação é dos experts. São eles que determinam o que é uma boa interpretação. Imagino, portanto, que na sua concepção de expert estão excluídas as ovelhas estudiosas que compreendem o texto de Publicano da maneira tradicional — disse Prudente.
— Não é que eu as esteja excluindo pessoalmente. Eu reconheço que existem ovelhas muito esforçadas e zelosas que entendem o texto de modo simplista. Mas, como escreveu Fazedor-de-Tendas, "o seu zelo não se baseia em conhecimento" (Rm 10:2). É questão de humildade se submeter à sabedoria dos mais sábios — disse Sabichona.
— Mas quem define quem é sábio e quem não é? Pois eu diria que existem muitos sábios que entendem, a partir do texto de Publicano, que Salvação nasceu de uma virgem através de uma ação sobrenatural do Espírito Santo, e depois de sua morte, ressuscitou literalmente — disse Prudente.
— Prudente, não te estranha a credulidade dessas ovelhas que você considera sábias? Estamos em pleno século XXI, século da mais avançada Ciência e Tecnologia. Se alguém te contasse que um cordeiro qualquer foi concebido sem ato reprodutivo, ou que ressuscitou depois da morte, você acreditaria? — questionou Sabichona.
— Não, não acreditaria. Mas Salvação não é um cordeiro qualquer. Por isso não me estranha a "credulidade" dos sábios que creem nisso — respondeu Prudente.
Nesse momento, o impasse impôs silêncio na discussão por um instante. Nenhuma das duas tinha algo que quisesse acrescentar ao debate.
Depois de alguns segundos, Sabichona quebrou o silêncio:
— Está bem. Vejo que é grande o seu preconceito com o método, tão grande que você não quer nem testá-lo. Não vou julgá-la por sua resistência. Mas pelo menos considere, por um momento, o testemunho de Curiosa. Diga, Curiosa. Fale de que modo maravilhoso o método abriu seus olhos para que você pudesse ver muito além do que está escrito.
Curiosa foi pega de surpresa, pois agora ela é que estava distraída com os próprios pensamentos. Mas, a essa altura, já havia sido convencida, por tudo o que Prudente disse, que aquele método não era adequado para ovelhas comprometidas com a Verdade. Então, um pouco sem jeito por saber que desapontaria Sabichona, respondeu:
— Sabichona, devo dizer que concordo com Prudente. A princípio, por causa da lentidão do meu raciocínio, eu não havia me atentado para as implicações das interpretações resultantes da aplicação do método. Isso começou a mudar depois que, tendo lido de olhos fechados, conclui que Salvação jamais ressuscitou literalmente. Algo dentro de mim me incomodou profundamente, e creio que esse incômodo tenha vindo do Espírito Santo. Pois se Salvação não ressuscitou, isso remove de nossa fé qualquer esperança de que nós seremos ressuscitadas, uma vez que essa esperança se baseia na promessa de Salvação registrada pelo Discípulo-Amado: “eu as ressuscitarei no último dia” (Jo 6:40,44,54). Mas se ele não ressuscitou, então continua morto, incapaz de qualquer coisa que seja. E se os relatos de sua ressurreição, mesmo sendo tão claros e objetivos, não podem ser entendidos da maneira simples como os autores parecem querer que sejam entendidos, que dirá dos relatos de suas promessas e obras. Isso não te incomoda, Sabichona?
Surpresa e bastante decepcionada, Sabichona respondeu:
— Você também vai rejeitar o método com base em seus sentimentos? Se estamos de fato comprometidas com a verdade, não importa a maneira como ela nos faz sentir. Admira-me que vocês tão facilmente abram mão da verdade apenas porque ela as incomoda.
Era fim de tarde, e já começava a escurecer. A tensão daquela conversa que se tornou uma acalorada discussão consumira a energia das três ovelhas. Era costume delas, depois de sua reunião, sentar-se para comer. Vi que perto dali havia uma mesa posta, muito bem iluminada, com vinho e pão. Então Prudente sugeriu:
— Já está anoitecendo, e estou com fome. Podemos continuar essa discussão na mesa?
Depois de olhar para a mesa e ver como estava iluminada, Sabichona respondeu:
— Hoje não vou ficar. Estou exausta! Vou para casa — Ela disse isso não tanto porque estivesse cansada, mas por temer se expor ainda mais à luz (Jo 3:18-21).
Após se despedirem de Sabichona, Prudente e Curiosa sentaram-se à mesa para comer e conversaram até tarde. Curiosa agradeceu Prudente por ajudá-la a enxergar os perigos daquele método e aconselhou-se com ela sobre como ser mais prudente.
A última coisa que me lembro do meu sonho são estas palavras de Prudente:
— Guarde isso, Curiosa: embora entender estes livros brancos às vezes possa parecer uma tarefa difícil, crer neles é impossível, exceto para aqueles que amam a luz. Não se impressione com quem julga entendê-los, mas não crê neles. Apenas ore por eles, para que Deus os convença a ler os livros brancos como devem ser lidos: de olhos abertos e debaixo da luz.